Terça com leitura – Ser uma pessoa melhor

Ser uma pessoa melhor Conrado muylaert

“Eu fico assustado. A ciência está sendo desprezada. Preconceitos crescendo. Ódio se espalhando. Alguma coisa está errada. Parece que estamos voltando no tempo. Observo. Lembro da minha infância. Quero contar sobre o que vi e (sobre)vivi. Fui criança numa época em que coisas absurdas eram vistas com normalidade. Na TV, negros só tinham papéis de empregados domésticos ou escravos nos filmes e novelas. Gays eram motivos de piada nos programas humorísticos – o que acontece até hoje, visto que no especial de natal da porta dos fundos, Jesus ser gay era a piada principal. Mulheres eram expostas como objetos em qualquer programa televisivo. Mas não era de maneira discreta como hoje fazem. Em pleno horário nobre de domingo, lembro-me de assistir um quadro dos trapalhões onde mulheres eram vendidas com preços relativos a sua quilometragem!?! Não à toa, aprendia-se ainda novo que menina rodada não serve pra namorar. Regra oposta para os meninos. Na minha escola, quase não havia negros. Bem, em média um por turma, como numa comédia americana que finge dar representatividade. Também não havia gays. Mas havia. Porém, tinham q se manter trancados no armário porque já sofriam toda espécie de bullying, pelos alunos, professores e direção. A escola, religiosa por sinal, tinha preconceitos visíveis. Com qualquer minoria. E também não aceitava diversidade religiosa. Certa vez, na aula de religião, uma menina, ao se declarar espírita, foi ordenada a não emitir opinião. Naqueles tempos, ser pobre era a completa vergonha. Fomos criados assim, com esses conceitos morais. Por volta dos 8 anos, um acontecimento me marcou. Era época de eleição. Durante uma aula de inglês um estudante fala pra mim: “não deixe seus pais votarem em Brizola. Porque se ele ganhar, vamos ter que dividir nossa comida e nossa casa com os pobres”, Fiquei dias pensando naquilo. Completou: “mamãe disse q Brizola é comunista”. Não entendi nada. Mas, por muitos anos, achei que comunismo era alguma seita demoníaca. O termo está em alta atualmente, e, dessa vez, usado realmente com ares diabólicos. Por políticos convencionais e os novos religiosos-políticos. Acho curioso. Eu não sou religioso, mas imagino que se Jesus vivesse entre nós, ele não iria curtir muito as ideias do capitalismo. Se bem que se Jesus estivesse entre nós, certamente sofreria ataques diários de haters. Basta lembrar as milhares de ofensas que o papa Francisco recebeu ao publicar um post condenando a tortura. Voltando àquele menino da aula de inglês, atualmente, sigo-o nas redes sociais. Não mudou nada. Vive compartilhando mensagens de radicalismo ideológico. Pior, é gay e precisa esconder de todos, já que seus pais não aceitam. Que vida triste. Eram pessoas daquela época. Criadas por pais daqueles tempos obscuros. Pessoas que, assemelham-se bastante com atuais governantes: machões, machistas, racistas, homofóbicos. Elegem seus similares. Pessoas ruins. Senhores feudais que não evoluíram no tempo. Não evoluíram nada. Ainda acredito. É possível melhorar. Ao longo dos anos, a sociedade realmente melhorou. Inclusão e respeito foram aumentando. O mundo parecia ter entrado nos eixos. Até que, nada silenciosamente, andamos pra trás. A passos largos. Sob o nome de conservadorismo. O que eles querem conservar? Aquele passado, penso eu. Podemos ser melhores. Apenas há poucos anos atrás comecei a abrir meus olhos. Graças a uma aventura que embarquei sem querer: ser dono de um bar universitário, em grande maioria, gay. Por 4 anos, tive contato diário com uma nova geração. A geração do mimimi, como dizem por aí em tom pejorativo. Uma geração incrível que já cresce sabendo o que é certo e errado. Que sabe respeitar a todos; que sabe que todos são iguais. Que respeitam os animais e a natureza. Essa galera me enche de esperança. Por causa deles, a injustiça não tem mais uma plateia muda. Eles não se calam nunca. gritam pelos seus direitos. Uma galera que vai inovar, e não conservar. Conservar o que? Ideologias e comportamentos perdem a validade. Estragam. Apodrecem. Melhorei muito ao ver os conceitos que estavam enraizados em mim. Me livro dessas raízes diariamente. Quero ser uma pessoa boa todo dia. Haja esforço. Perfeito? Nunca serei. Mas sigo com minha jornada diária de buscar ser a melhor versão de mim.”

Texto de Conrado Muylaert.

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